quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Conto da Escritora Sylvia Manzano

Praia Grande, 31 de agosto de 2011
Prezados alunos
 
Vou contar uma histórias pra vocês de algumas coisas que trago engasgadas na garganta.
Qdo eu era jovem e morava numa cidade do interior existia uma coisa chamada “footing”, que acontecia na praça principal da cidade e consistia no seguinte:
Todo mundo ia pra praça nos sábados e ficava andando numa roda de um lado para o outro.
Era uma espécie de FACE de hoje em dia, só que não era virtual, acontecia em tempo real.
As garotas andavam num sentido e os garotos andavam no sentido contrário.
Ali aconteciam as paqueras, os namoros e conseqüentes casamentos.
Essa era a roda da alta sociedade, a qual eu pertencia e depois tinha outra, mais do lado, que era de quem trabalhava em “fábrica” e em volta da praça existia a roda dos pretos, como eram chamados naquele tempo.
Eu achava aquilo muito normal e bastante prático, porque afinal, a gente nem precisava esquentar pra arrumar namorado, era só ir na praça aos sábados.
Nos domingos tinha a retreta, a banda tocava no coreto, músicas ensaiadas a semana inteira.
Desde pequena, fui acostumada a ouvir (graças a Deus, não na minha casa, na minha família) que preto fedia, preto era porco e preto, qdo não cagava na entrada, cagava na saída.
Aquilo me deixava encafifada, eu gostava muito dessa raça (etnia) desde pequena, não me perguntem porque...
Eu adorava a música negra dos Estados Unidos, eu adorava as escolas de samba do Brasil, enfim, eu tinha uma simpatia especial por essa raça, mas não ousava questionar o que a sociedade da minha cidade dizia que era o certo e o que era o errado.
Aí, me formei para professora primária e queria estudar na faculdade, que era em outra cidade próxima.
Meu pai não podia me sustentar e eu prestei uma concurso pra trabalhar na Secretaria da Fazenda.
Passei, escolhi a cidade onde tinha a faculdade e fui fazer vestibular.
Cursei a faculdade de filosofia pura e foi preciso mto estudo e mta leitura pra entender o que foi a escravidão negra no Brasil.
Os negros vieram da África pra serem escravizados e viviam em senzalas nas grandes fazendas dos coronéis, que viviam na chamada CASA GRANDE.
As sinhazinhas, as filhas dos coronéis, passavam o dia inteiro bordando, estudando francês e lendo romances de amor.
Usavam lindos vestidos mto alvos, engomados, cheios de rendas e babados.
E quem lavava e engomava os vestidos?
Eram as negras escravas.
As mesmas que arrumavam a casa, faziam a comida, cuidavam da horta e ainda consolavam as sinhazinhas que sofressem por amor.
Os negros cuidavam das plantações e do gado, enqto os coronéis ficavam em intermináveis reuniões de política, fumando charuto e bebendo cachaça.
Não faziam nada também e o que mesmo que foi passado para a história e para a cabeça de todas as futuras gerações?
O que falei lá no começo: negro fede, negro é porco, é indolente e qdo não caga na entrada, caga na saída.
Aqueles mesmos negros que iam para o tronco, que apanhavam do capataz, que sofriam inúmeras humilhações e ainda criavam coragem pra tratar as casas das sinhás com tanto amor e carinho.
Se eu não tivesse ido pra faculdade, estudado e tudo o mais, talvez tivesse me casado na minha cidadezinha do interior, criado filhos e ensinado pra eles, que negro isso, negro aquilo, etc, etc, etc.
E o que fazer, qdo se descobre isso?
Sair por aí chutando lata, brigando, querendo matar todo mundo?
Pode ser um caminho, mas vai apenas reforçar mais o que nos foi ensinado desde a infância, que negro e pobre não tem jeito mesmo.
Tá vendo?
Eles são assim, eles são violentos, não tem jeito mesmo, a gente faz de tudo por eles e veja como eles respondem.
Tem um outro caminho, que é estudar, estudar, estudar, ir pra faculdade, ter uma profissão e mostrar que negro e pobre têm valor, sim.
Como diz uma música conhecida: “chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”.
Agora é com vocês, vocês é quem decidem qual caminho seguir.
Existem mtas profissões dignas que não precisa ir pra faculdade, quem não gosta mesmo de livro, deve procurar uma delas.
Existem várias.
É só procurar, mas de qualquer forma, hoje em dia, um estudo básico tem que ter, né?
Eu acho lindo, por exemplo, ser pescador, lidar com o mistério das marés, mas até pra ser pescador, hoje em dia, tem que saber um bom básico.
Eu acho lindo ser marceneiro, tanto que meu segundo marido era marceneiro, mas hoje em dia, as serras elétricas são todas computadorizadas.
É lindo ser manicure, as manicures hoje em dia, realizam obras de arte nas unhas das clientes, mas que tem que ter um estudo básico, isso tem.
Existem mil profissões e que cada qual escolha a sua.
E assim termina minha história.
Espero que vocês gostem dela e me escrevam se quiserem.
Até a próxima.
Sylvia Manzano

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