quarta-feira, 22 de junho de 2011

9º ANO - A Primeira República Brasileira ou A República Velha


República Velha  - Professor Marcelo Ferraz
               A Primeira República Brasileira, normalmente chamada de República Velha (em oposição à República Nova, período posterior, iniciado com o governo de Getúlio Vargas), foi o período da história do Brasil que se estendeu da proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, até a Revolução de 1930 que depôs o 13º e último presidente da República Velha Washington Luís.
               A República Velha pode ser dividida em dois períodos: O primeiro período chamado República da Espada, (1889 a 1894) e o segundo período chamado República Oligárquica, (1895 a 1930).
               Esse período de 1889 até 1930, chamado de República Velha, também ficou conhecido como "Primeira República", "República dos Bacharéis", "República Maçônica" e "República da Bucha", pois todos os presidentes civis daquela época eram bacharéis em direito, membros de uma sociedade secreta (maçonaria) da Faculdade de Direito de São Paulo, conhecida como “Bucha”, exceto Epitácio Pessoa que bacharelou-se em direito em Recife.  Os membros da Bucha procuravam, quando alcançavam um alto cargo político, chamar seus colegas da Bucha para sua equipe.

A Primeira República Brasileira
                Em 15 de novembro de 1889 foi Proclamada a República no Brasil, ocorrida na Capital do Império (Rio de Janeiro), instaurando o regime republicano que derrubou a monarquia constitucional parlamentarista do Império, pondo fim à soberania do Imperador Dom Pedro II.  Um grupo de militares do exército brasileiro, liderados pelo Marechal Deodoro da Fonseca, deu um golpe de estado, fazendo uso da coação, não de violência.  Foi instituído no mesmo dia um “Governo Provisório”, tendo como Presidente da República e Chefe do Governo Provisório o Marechal Deodoro da Fonseca e como vice presidente, o Marechal Floriano Peixoto.
               Os anos posteriores a 15 de novembro inaugurou um período de incertezas pelas disputas do poder, envolvendo interesses diversos e divergências nas concepções de como organizar a República.  Os principais grupos que disputavam o poder, de um lado estavam os políticos das classes dominantes (Oligarquias) de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, do outro lado, os Militares.
               As Oligarquias Paulista, Mineira e Gaúcha, defendiam uma estrutura republicana federativa nos moldes norte americanos, com autonomia das províncias, assegurando-lhes poder regional.  Os oligarcas Mineiros e Paulistas organizados no PRP (Partido Republicano Paulista) e o PRM (Partido Republicano Mineiro), sustentavam o modelo liberal, expressavam os interesses das classes dominantes, onde a base da República seria: os Cidadãos, um Presidente da República eleito e o Congresso.  Os republicanos gaúchos do PRR (partido Republicano Riograndense), eram positivistas [1] e lutavam contra a política tradicional, representada pelo Partido Liberal de tradição monarquista.
               Os Militares, pretendiam erguer uma república centralizada com um Executivo forte e que a república deveria passar por uma ditadura mais ou menos prolongada.  Eram contra a autonomia das províncias por essas servir aos interesses dos grandes proprietários que poderiam levar a fragmentação do país.  Os dois principais líderes militares que foram eleitos para o Governo Provisório, Marechal Deodoro (Presidente) e Marechal Floriano Peixoto (Vice), provinham de duas regiões de importância política, São Paulo e Minas Gerais.  Ambos tinham diferenças pessoais e de ideias.  Deodoro e seus militares se distanciavam das idéias positivistas, tinham ajudado a derrubar a monarquia e não possuíam uma visão elaborada da República, apenas defendiam a ideia de que o exército deveria ter um papel de maior importância do que tinham no Império (Guarda Nacional).  Floriano tinha em seu grupo de apoio, militares jovens, alunos da Escola Militar, pensava a inserção na sociedade dos soldados como cidadãos e que a República deveria seguir as idéias positivistas (Ordem e Progresso) de modernização da sociedade, através da ampliação dos conhecimentos técnicos, o crescimento da indústria e a expansão das comunicações.  Além dessas, havia diferenças nas Forças Armadas: os militares do Exército eram Republicanos e os da Marinha, eram Monarquistas.  O ponto em comum entre os militares é que “não expressavam os interesses de uma classe social em particular” e eram adversários do liberalismo [2].
               Outro fator, além das diferenças políticas, era: qual o setor da sociedade tinha condições reais de assumir o poder, ocupando o vazio deixado pela monarquia?  Para o ex presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso, “o poder do estado só poderia ser preenchido, como foi, pela estrutura burocrática que se deslocava do estado imperial: as forças armadas”.

[1] Positivismo é um conceito utópico que possui distintos significados, englobando tanto perspectivas filosóficas e científicas dos séculos XIX e XX.  Seu postulador teórico foi Augusto Comte (1798-1857).  O lema Ordem e Progresso na bandeira do Brasil é inspirado pelo lema de Auguste Comte do positivismo: L'amour pour principe et l'ordre pour base; le progrès pour but ("Amor como princípio e ordem como base; o progresso como meta"), representando as aspirações a uma sociedade justa, fraterna e progressista.. Foi colocado, pois várias das pessoas envolvidas no golpe militar que depôs a monarquia e proclamaram o Brasil República eram seguidores das ideias de Comte.

[2] O liberalismo é um sistema político-econômico baseado na defesa da liberdade individual, nos campos econômico, político, religioso e intelectual, contra as ingerências e atitudes coercitivas do poder estatal.

A República da Espada (1889 a 1894)
               Na primeira fase do Governo Provisório, Marechal Deodoro da Fonseca que foi eleito pelo Congresso por voto indireto, foi pressionado pelos Republicanos Liberais do PRP e PRM que temiam uma “semiditadura”, tomou algumas medidas instituindo a República: Convocou eleições para a formação de uma Assembleia Constituinte em 1890, que promulgou a primeira constituição republicana em 24 de fevereiro de 1891, que seguiu o modelo norte americano, que estabelecia:
- Os três poderes – Executivo, Legislativo e o Judiciário: O Executivo, exercido pelo Presidente da República com mandato de 4 anos, dando liberdade ao presidente de nomear para ministros pessoas de sua confiança; o Legislativodividido entre a Câmara dos Deputados, com Deputados eleitos em cada estado, em número proporcional a quantidade de habitantes, por período de 3 anos; o Senado, onde os Senadores deixaram de ser vitalícios, com mandato de 9 anos e sendo eleitos 3 senadores por estado e 3 senadores representando o Distrito Federal e o Judiciário.
- O sistema eleitoral através do sistema de voto direto e universal, foi suprimido o censo econômico, todos os brasileiros maiores de 21 anos são eleitores, excluídos analfabetos, mendigos, praças militares e as mulheres.  A eleição dos primeiros presidentes e vice, seria por voto indireto da Assembléia Constituinte.
- O texto constitucional consagrou o direito de brasileiros e de estrangeiros residentes no país a liberdade, à segurança individual e à propriedade, extinguindo a “pena de morte”.
- A República Federativa do Brasil, transformando as províncias em 20 Estados seguindo os princípios federativos da autonomia política - cabe aos estados ter poderes e direitos, desde que esses não fossem negados no texto constitucional - e financeira - os Estados ficam autorizados a exercerem atribuições diversas: contrair empréstimos no exterior, organizar forças militares estaduais e organizar a sua justiça.  Cabia a União, regular impostos de importação, direitos de criar bancos emissores de moeda, organizar as forças armadas nacionais, intervir nos estados para restabelecer a ordem e manter a forma republicana federativa.
- Separação entre o Estado e a Igreja (o estado passou a ser Laico), deixou de existir uma religião oficial no país, a convicção laica dos republicanos surgiu da necessidade dos republicanos em apaziguar os conflitos entre o Estado e a Igreja; principalmente de Alemães protestantes luteranos; tinha por objetivo facilitar a integração dos imigrantes, mão de obra necessária à cafeicultura,  como também promover a grande naturalização transformando em brasileiros, todos os estrangeiros  que se achavam dentro do Brasil em 15 de novembro de 1889; o reconhecimento do casamento civil, os cemitérios passaram para a administração municipal e em 1893 foi criado o registro civil para nascimento e falecimento.

O Encilhamento
               No primeiro ano da República sob o comando do Presidente. Marechal Deodoro, foi nomeado para Ministro da Fazenda Rui Barbosa, que colocou em prática uma política econômica “modernizadora”.  A estrutura econômica do Brasil era arcaica, desde os últimos dias do Império a quantidade de moedas circulando no país era incompatível com as novas modalidades de trabalho assalariado advindas do ingresso no país de uma grande quantidade de imigrantes para a lavoura cafeeira e o sistema financeiro era atrasado.  A política econômica adotada por Rui Barbosa visava dar credibilidade internacional a recém criada República do Brasil  e à obtenção de empréstimos no exterior para criar oportunidades à industrialização do Brasil.
               O Ministro fixou vários decretos com o objetivo de aumentar a oferta de moeda, tomando duas direções: 1) Criação de centenas de empresas reais e fictícias e 2) deu permissão a diversos bancos para emitir moeda.  O governo facilitou o crédito (empréstimos) a essas empresas junto aos bancos para o desenvolvimento de novos negócios, liberando empréstimos às pessoas para a abertura de empresas, sem mesmo saber de suas reais condições de pagamento.  Essas empresas fizeram especulação financeira com seus títulos na Bolsa de Valores, gerando uma grave crise financeira no início de 1891, com a derrubada do preço de suas ações o que levou a falência muitas empresas e bancos.  A desastrosa política econômica gerou uma enorme inflação no país e uma grave crise econômica.  Essa política econômica ficou conhecida como Encilhamento, nome que vem de encilhar (local no Jóquei Clube onde são dados os últimos retoques nos cavalos antes do início do páreo), por analogia à política econômica, significou a disputa entre as ações das empresas na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, trazendo a ideia de jogatina.
               Deodoro enfrentou as tensões políticas com as correntes republicanas desde as eleições.  O insucesso da política econômica e sua tendência centralizadora agravaram os conflitos políticos.  O êxito do governo de Marechal Deodoro dependia da unidade das Forças Armadas, o que não corria.  Deodoro em crise com o Congresso por ter nomeado um ministério de tradição política monarquista, o Barão de Lucena, tentaram reforçar o poder executivo seguindo o modelo do extinto poder moderador.  Pretendiam uma revisão constitucional para diminuir a autonomia dos estados e os exageros de soberania concedidos aos Estados, que na sua visão provocaria a dissolução da república, pretendia a unidade da magistratura com o fim da organização da justiça pelos estados e igualdade de representação dos estados na câmara anulando assim o peso dos grandes estados. Tendo minoria no congresso tentou fechá-lo, na tentativa de alterar algumas prerrogativas constitucionais, tornou insustentável sua permanência no poder, a qual renunciou em novembro de 1891, assumindo seu vice Marechal Floriano Peixoto.

Governo do Marechal Floriano Peixoto (1891 – 1894)
               Marechal Floriano Peixoto assumiu a Presidência (de 1891 – 1894) com apoio do PRP e da elite política de São Paulo sem a qual não poderia governar, que viam na figura de Floriano a sobrevivência da República a partir do poder central.   Mas, a visão de Floriano era a de uma República não identificada com as forças econômicas dominantes, pensava construir um governo estável, centralizado, vagamente nacionalista e seguindo as idéias positivistas que tinham suas bases nas escolas militares do exército.  Os militares pretendiam que fossem convocadas novas eleições, pois Deodoro não havia completado seu mandato, o que não ocorreu.  Essa situação dividiu as Forças Armadas, o Exército defendia a República e a Marinha desde da época do império era Monarquista.  Somado a isso, houve um choque com a “República dos Fazendeiros”, de características liberais que defendia a descentralização do poder, suspeitavam do reforço do exército e das manifestações populares que aconteciam no Rio de Janeiro.  
               Em 1893, o Almirante Custódio de Melo rebelou-se no Rio de Janeiro dando início a “ 2ͣ  Revolta da Armada” (foi um movimento de rebelião promovido por unidades da Marinha do Brasil contra o governo do marechal Floriano Peixoto, supostamente apoiada pela oposição monarquista à recente instalação da República, a 1ͣ Revolta da Armada havia acontecido no governo do Marechal Deodoro da Fonseca).
               Outra revolta eclode no Rio Grande do Sul, a “Revolução Federalista” - 1893 a 1895, teve  como causa a instabilidade política gerada pelos federalistas.  O PF: Partido Federalista (conhecidos como Gasparistas ou Maragatos) era composto por uma elite política tradicional com raízes no Império - os Estancieiros de Campanha - eram liderados por Gaspar Silvério Martins, uma prestigiosa figura do Partido Liberal do Império.  Os Federalista defendiam o sistema Parlamentar de governo e a revisão da Constituição do Estado do Rio Grande do Sul.  Pretendiam: "libertar o Rio Grande do Sul da tirania do Presidente do Estado e chefe do PRR - Partido Republicano Riograndense  Júlio Prates de Castilhos” (cujos seguidores eram conhecidos como Castilhistas ou pica paus) era composto pelas populações do litoral e imigrantes que moravam nas regiões serranas, que formavam uma elite disposta a monopolizar o poder.  Seguiam a Constituição do Rio Grande do Sul, de 1891, que era inspirada no positivismo* e no presidencialismo.  As divergências tiveram inicio com atritos ocorridos entre aqueles que procuravam a autonomia estadual, frente ao poder federal (PF) e seus opositores (PRR). A luta armada atingiu as regiões compreendidas entre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.  Disputas sangrentas acabaram por desencadear uma guerra civil, vencida pelos Castilhistas ou  pica-paus, seguidores de Júlio de Castilhos.
               O Marechal Floriano Peixoto devido à contenção e repressão às revoltas foi apelidado de “Marechal de Ferro”.  A sucessão de Floriano Peixoto foi resultado de um acordo entre Floriano e os cafeicultores paulistas.  Floriano tendo pouca base de apoio, não teve condições de indicar seu candidato a sucessor, vencendo o candidato que defendia os interesses dos cafeicultores paulistas, Prudente de Morais.

O Regime Oligárquico
               Com a eleição de Prudente de Morais (1894 – 1898), a “República Oligárquica” começou a definir a sua face - República Oligárquica (do grego oligarquia = governo de poucos, de uma família) que foi comandada por uma elite, a dos produtores de café paulistas.  Essa oligarquia não tinha um bloco único, havendo Brasil afora diferenças e principalmente divergências entre as oligarquias: paulista, pernambucana, mineira e gaúcha.  Porém alguns traços gerais eram bem definidos, tais como: o interesse pela autonomia do poder regional consagrada na Constituição de 1891, que deu-lhes o direito de organizar a justiça e a polícia militar estadual, elaborar a Legislação Eleitoral, contrair empréstimos externos e estabelecer tributos.  Assim, a Constituição Republicana atendia a uma reivindicação fundamental das oligarquias estaduais: Liberdade e Autonomia para administrar os seus estados.
               Prudente de Morais não conseguiu implementar uma política para consolidar o poder das oligarquias, pois teve que enfrentar a oposição de algumas elites estaduais e o “republicanismo” de esquerda (jacobino) concentrado no Rio de Janeiro, formado por membros da baixa classe média, alguns operários e militares atingidos pela carestia e as más condições de vida.  Suas motivações não eram apenas materiais.  Acreditavam numa república forte, capaz de combater as ameaças monarquistas que, para eles, estavam em toda a parte.  Eram adversários da República Liberal, assumiram também a velha tradição patriótica e antilusitana, dos “galegos” (portugueses) que dominavam o comércio carioca e eram alvo de violentos ataques.  Esses republicanistas cariocas apoiaram Floriano e o transformaram em uma bandeira depois de sua morte em 1895. (Boris Fausto, História do Brasil. A Primeira República. p. 256)
               No período da República Oligárquica, que durou de 1894 a 1930, o poder político federal ficou nas mãos das oligarquias cafeeiras paulistas e mineiras.  São Paulo e Minas Gerais dominaram o governo federal na maior parte desse período por meio da chamada "política do café-com-leite". O "café" é referência a São Paulo, maior centro produtor e exportador de café do país, e o "leite" é uma referência a Minas Gerais, tradicional produtor de leite. Minas Gerais era o segundo maior produtor de café na República Velha.
               A Política do Café com Leite, inicialmente foi o arranjo político no qual se lançava um paulista candidato a presidente e um mineiro a vice presidente.  Pode-se afirmar que, de fato, a República oligárquica só se consolidou em 15 de novembro de 1898, com a posse do segundo presidente civil, Campos Sales (Presidente de 1898 a 1902) que preocupado com a estabilidade política do Brasil que não contava com partidos políticos organizados a nível nacional, instituiu a “Políticas dos Estados”, vulgarmente conhecida como “política dos governadores”, fez o próprio Campos Sales conduzir sua sucessão presidencial que se daria em 1902, indicando o paulista Rodrigues Alves (Presidente de 1902 a 1906) como candidato à presidência.
              
A Política dos Governadores – O Clientelismo Político e o Coronelismo
               Foi no governo do Presidente Campos Sales (1898 – 1902) que duas políticas básicas da chamada República Velha foram instauradas: a política da valorização do Café e a política dos governadores.
               A política da valorização do café... (Ver Convênio de Taubaté)
               A política dos governadores pretendia: evitar as disputas políticas entre os Governo Federal e os Governos Estaduais para garantir o domínio permanente da máquina administrativa dos estados por seus governadores.  Foi estabelecido um acordo entre o Presidente da República e as oligarquias regionais, que tinha o seguinte objetivo: o Governo Federal prestigiaria os grupos políticos oligárquicos mais fortes dos estados e não apoiaria dissidentes (os grupos que fossem contra essas oligarquias estaduais), em troca, as bancadas federais do estado aprovariam os projetos do Executivo enviadas ao congresso.
               Para assegurar a viabilidade do acordo dos governadores com o Presidente, se manteria as velhas regras eleitorais da época do Império:
- os candidatos aos cargos de deputados e senadores seriam eleitos por uma minoria da população (1,6% a 6% dos eleitores), sendo que esses eleitores estavam ligados aos “coronéis” latifundiários que lideravam uma vasta clientela de parentes diretos e indiretos, presos através de empregos e favores que lhes garantia a chefia da política local e regional (Coronelismo).  O povo encarava a política como um jogo entre os grandes ou uma troca de favores, principalmente com a prática política dos partidos estaduais, que nos anos de eleições para presidente se acertavam, lançando candidaturas únicas ou candidatos de oposição que não tinham qualquer possibilidade de êxito para assim dividir os votos;
- o voto não era secreto e a maioria dos eleitores estavam sujeitos a pressões dos chefes políticos locais ou regionais, a quem tratavam de agradar (Os Coronéis do “nordeste” – cujo título era dado a fazendeiros que ocuparam cargos na Guarda Nacional durante o Império);
- o voto não era obrigatório;
- havia fraude eleitoral através da falsificação de atas, do voto de mortos, dos estrangeiros (práticas vindas da monarquia);
- mesmo após a apuração dos votos na eleição, se a maioria governista não estivesse garantida, havia a alternativa de não reconhecer o Diploma Eleitoral do Deputado eleito, impedindo-o de assumir;
- estavam excluídos das eleições os analfabetos, os mendigos, os praças militares e as mulheres. (Boris Fausto.  História do Brasil. A Primeira República. p. 262)

A base da República Velha - O coronel
               Quem organizava a vida política, diretamente no contato com a população, nos municípios, era a figura "carismática" do "coronel". Sempre fazendeiro, sendo geralmente o líder da maçonaria local, o coronel, apesar do nome, era um líder essencialmente civil, em um país com 80% de sua população rural, onde tinha que se caminhar muito para fazer política. Era o coronel o elo entre a população e o poder estatal.
               O Coronel garantia os votos locais do Presidente do Estado (hoje se diz Governador), em troca do apoio do governador à sua liderança política no seu município, no qual dispunha de grande poder devido ao fato da Constituição de 1891 ser descentralizadora, garantindo, aos estados e municípios, grande autonomia legislativa e de polícia.
               O coronel nem sempre ocupava o cargo de Intendente Municipal, prefeito, delegado de polícia ou o de vereador, em geral, indicava os candidatos a esses cargos. O tipo do Coronel entrou em decadência com a urbanização do Brasil.
               O termo coronel começou a ser usado, no Brasil, por líderes políticos locais já no período da Regência, a partir de 1831, quando foi criada a Guarda Nacional em substituição às Companhias de Ordenanças, extintas naquele ano e que foram de grande importância na época do Brasil Colônia.  A patente mais alta na Guarda Nacional era a patente de coronel, a qual era atribuída ao fazendeiro mais importante de uma região, onde havia um batalhão formado da Guarda Nacional.

A Economia do Café e da Borracha
               No campo da economia, predominou as exportações de café, base da economia e maior fonte de receita tributária. Foi também um período de modernização, com grandes surtos de industrialização, como o ocorrido durante a Primeira Guerra Mundial, porém, a economia continuaria dominada pela cultura do café, até a Quebra da Bolsa de valores de Nova Iorque, durante a Crise de 1929.
               Houve um grande surto de produção e exportação de borracha da região amazônica durante o início da República Velha. A borracha chegou a ocupar o segundo lugar na pauta de exportações brasileiras, perdendo apenas para o café. A seringueira,  é uma árvore natural da Amazônia. Fazendo uns talhos no tronco, o seringueiro extrai um líquido leitoso grudento. Esse líquido vai secando e formando uma bola macia. A bola é a matéria-prima para fazer borracha. A borracha já era conhecida no século XIX. Mas ela tinha o defeito de ficar mole nos dias de calor e quebradiça no inverno.
               Em 1839, o engenheiro norte-americano Charles Goodyear descobriu que dava para resolver esse problema colocando a borracha no fogo para se combinar com enxofre (processo de vulcanização). A partir daí, a borracha destacou-se na indústria mundial: era matéria-prima para a produção de peças, solas de sapato, pisos e coberturas, luvas, vedações, etc. No começo do século XX, a indústria automobilística começou a se desenvolver espetacularmente. Os pneus dos carros passaram a ser feitos de borracha com matéria prima exclusiva da Amazônia.
               O ciclo da borracha converteu as cidades amazônicas em prósperos centros econômicos e culturais. Entre 1890 e 1920, a borracha foi o segundo produto de exportação do Brasil, só perdendo para o café. Muitos latifundiários, donos de seringais, ficaram milionários, Manaus e Belém construíram belíssimos palacetes para esses barões da borracha. Homens tão ricos que, só para aparecer, mandavam lavar suas roupas em Paris. Houve um grande desenvolvimento da cidade de Manaus que ficou caracterizado pelas suas construções especialmente o Teatro Amazonas em Manaus. Na selva, porém, era diferente. Lá trabalhavam os peões. Geralmente, nordestinos fugidos do latifúndio e da caatinga seca para reencontrar o latifúndio na selva.
               Durante alguns anos, a borracha brasileira dominava o mercado internacional, até que a Inglaterra começou a produzí-la, em larga escala, em suas colônias no Sudeste Asiático, depois de ter contrabandeado mudas de seringueira do Brasil. O preço internacional da borracha caiu muito e a borracha brasileira perdeu seus mercados. Os seringais foram abandonados e a Amazônia voltou à estagnação econômica, porém, conseguindo o Brasil, graças à borracha, atráves de acordos e tratados internacionais a ampliação do território do Estado do Amazonas e a incorporação do Acre ao território brasileiro.

A Semana de Arte Moderna
               Artistas e intelectuais, influenciados por transformações da época, e pela efervescência no cenário político, realizaram a Semana de Arte Moderna de 1922 durante o governo de Washington Luís em São Paulo que deu seu apoio. Também apoiou a Semana de Arte Moderna, o órgão do PRP, o Correio Paulistano e dois dos membros do PRP participaram da Semana: Menotti del Picchia e Plínio Salgado. O movimento surgiu como um marco na história cultural do país e propunha a renovação nas artes, abrindo espaço para a arte verde–amarela.
               A Semana aconteceu no Teatro Municipal de São Paulo ( de 11 a 18 de fevereiro), com exposição de pinturas modernas, com quadros de Anita Malfatti, e espetáculos nos dias 13, 15 e 17. O segundo dia foi o mais polêmico, quando o poeta Menotti del Picchia, em sua conferência, defendeu: "(...)uma arte genuinamente brasileira, filha do céu e da terra, do Homem e do mistério. (...) Queremos luz, ar, ventiladores, aeroplanos, reivindicações obreiras, idealismos, motores, chaminés de fábricas, sangue, velocidade, sonho, na nossa Arte. E que o rufo de um automóvel, nos trilhos de dois versos, espante da poesia o último deus homérico, que ficou, anacronicamente, a dormir e a sonhar, na era do jazz–band e do cinema, com a flauta dos pastores da Arcádia e dos seios divinos de Helena!".
               O movimento resultou na publicação de importantes livros, entre os quais: Martim Cererê, de Cassiano Ricardo, Macunaíma, de Mário de Andrade, Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade e O Estrangeiro, de Plínio Salgado. A semana recebeu críticas sendo que uma das mais fortes foi feita por Monteiro Lobato.

A decadência da República Velha e a Revolução de 1930
               Com a urbanização do Brasil e o surgimento de grandes cidades, entra em decadência a figura do "Coronel" que era a base da república. Assim, com o enfraquecimento dos coronéis e a formação de uma dissidência da "Bucha", devida a uma crise surgida na maçonaria em São Paulo, que levou à criação do Partido Democrático (1930) em 1925, entra em decadência a República Velha. O Partido Democrático de São Paulo, liderado pelo Grão-mestre maçom do Grande Oriente de São Paulo, José Adriano Marrey Júnior, apoiaria Getúlio Vargas, que era candidato das oposições nas eleições de 1 de março de 1930.
               As eleições presidenciais de 1 de março de 1930 foram vencidas pelo candidato Júlio Prestes, presidente de São Paulo que tinha o apoio do presidente Washington Luís e de 17 estados. Getúlio Vargas recebeu o apoio de apenas 3 estados: (Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul), em mais uma eleição na qual a "política do café com leite" não vigorou.
               A oposição liberal não aceitou a derrota de Getúlio Vargas e iniciou a Revolução de 1930 liderada por Getúlio Vargas, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, ex-presidente de Minas Gerais e pelos tenentes. A revolução iniciou-se 3 de outubro de 1930. A revolução saiu vitoriosa, pois, em 24 de outubro, um golpe militar liderado por generais e almirantes depuseram o presidente Washington Luís e formaram uma Junta Militar Provisória que, em 3 de novembro de 1930, deu posse a Getúlio Vargas como Chefe do segundo "governo provisório" da república, pondo fim à República Velha.
               Foi então que esse período da república que vai de 1889 a 1930 recebeu o nome de República Velha, em oposição à República Nova criada por Getúlio Vargas.
               Depois de vitoriosa a Revolução de 1930, a revolta contra a Bucha foi tanta que se tentou profanar o túmulo do professor Julius Frank, fundador da Bucha, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco de São Paulo. Porém, dois dos ministros de Getúlio Vargas, no Governo Provisório, pertenciam à Bucha.
Bibliografia: BORIS Fausto. A República Velha (1889 – 1930) In:______História do Brasil. São Paulo: EDUSP, 8º edição, 2000. p. 245 - 275

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